terça-feira, 18 de janeiro de 2011

M de mãe

Blogagem coletiva
"MINHA DECLARAÇÃO DE AMOR

Nasceu em família humilde, quinto rebento de um total de seis. Rosinha nasceu antes da caçula Paula. Meninas criadas sem pai que se emperiquitou pela vizinha e abandonou o lar. Moravam todos no interior mas, pelas circunstancias da vida, tiveram de mudar para a cidade grande. São Paulo com seus arranha-céus imponentes, avenidas de puro concreto, era bem diferente do bairro simples de casinhas de madeira com florzinhas na janela e quintais com árvores frondosas onde costumava passar grande parte do tempo esquecida da vida, sonhando com seu príncipe encantado.

Um dia, numas das incontáveis voltas pela pracinha próxima a casa, única diversão possível para aquela menina pobre de 16 anos, após um dia de trabalho árduo como doméstica, recebeu das mãos de sua amiga, um bilhetinho que dizia assim:

A você morena bonita

Que eu nem sei o seu nome

Entrego meu coração

Porque o amor me consome

Rosinha ficou muito intrigada e curiosa querendo saber logo quem era o seu admirador apaixonado.

Tratava-se de Otávio, funcionário público, doze anos mais velho. Morava em Santos e de quinze em quinze dias ia à capital visitar familiares. Numa dessas idas avistou Rosinha que lhe roubou o sossego desde então. Logo estavam noivos. A menina não queria mas a mãe ralhava com ela dizendo:
-Você não pode perder esse partido - e recolocava no dedo de Rosinha a aliança reluzente que ela teimava em tirar sempre que havia uma oportunidade. Com o tempo acostumou-se à ideia de casar-se.

Otávio a visitava semana sim, semana não, com seu impecável terno de linho branco, chapéu de lado, nas mãos uma caixa de bombons e uma revista. Rosinha dizia às amigas:

-Vou levar uma vida de rica. Quem sabe ainda contrato uma de vocês para ser minha empregada. E riam, como elas riam fazendo planos.

Casou-se e foi morar no litoral.

Viu cada ilusão ser apagada pela gravidez imediata e a necessidade de trabalhar para ajudar nas despesas da casa para onde voltava exausta depois de um dia entre panelas, vassouras, esfregões e um tanque cheio de roupa suja.

O cansaço e o sono não permitiam que esperasse Otávio chegar da escola onde cursava o colegial.

Os anos passaram e Rosinha, a menina-mulher submissa, passava com eles. Querida por todos, sempre pronta a ajudar quem quer que fosse, teve três filhos. 

Orgulho-me de ter tido uma mãe como ela. Mãe por parentesco, mas acima de tudo uma amiga.
Me lembro das conversas que tínhamos sobre garotos. Das tardes em que ficávamos bordando paninhos de prato depois que eu chegava do colégio. Do chocolate que ela sempre comprava quando íamos ao centro fazer compras. Da sua paciência e palavras carinhosas quando eu contava sobre uma paixão não correspondida. Do apoio que me deu quando meu casamento terminou. Do seu riso fácil e contagiante. 
Dizia que ia viver só até completar 40 anos. Sobreviveu até os 56 quando foi vítima de um câncer agressivo que ceifou sua vida em seis meses.

Quantas vezes me peguei voltando para casa, depois de uma balada, rindo que nem boba sob o efeito do álcool, pensando que tinha de contar para ela as últimas peripécias da noitada.

O quarto vazio me chamava à realidade.

Ela se fora. Minha mãe, minha amiga, já não estava comigo.

E assim, sempre que acontecia alguma coisa ruim na minha vida e eu sofria, lembrava de minha mãe que aguentou corajosamente todas as dores provocadas pela doença.

A única vez que a vi reclamar foi na noite em que ela morreu.

Suas últimas palavras foram: filha, a mãe não aguenta mais de dor.

Desesperada busquei socorro na enfermaria exigindo que alguma coisa fosse feita porque minha mãe não podia sofrer. Logo ela, uma santa, um poço de bondade, um anjo bom na minha vida, não merecia passar por tudo o que vinha passando.

O enfermeiro colocou algo no soro e ela dormiu. Dormiu para não mais acordar entre nós. Despertou, com certeza, em um lugar lindo para onde são levados os anjos.

Mãe, nunca vou esquecer você, o grande amor da minha vida!

Este texto faz parte da Blogagem Coletiva de 
1º Aniversário do A Vida de Uma Guerreira

11 comentários. Para comentar clique aqui!:

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

poxa, Lili. fiquei muito emocionado com sua postagem. muito triste o sofrimento que ela enfrentou, eu sinto muito.
aonde ela estiver, ela te ama muito, sempre.

ADRIANE BERGO disse...

Sabe Li,hoje foi a minha vez de receber uma lição com as suas palavras. Estou muito emocionada até porque ouvi algumas vezes esta passagem contada por vc (Lembra?!!). Claro que de uma forma diferente.Desta vez foi de maneira pura , sem rancor,com lembranças, não como um desabafo,com saudades. Amiga,vc me fez chorar . Um grande beijo

Nilce disse...

Oi Lili

É claro que chorei Lili.
Quantas lembranças boas de convivência com sua mãe, uma amiga. Mulher sofrida que nunca deixou que o coração se amargasse.
Muito emocionante a sua Declaração de Amor à sua mãe que é de um amor eterno.

Obrigada pelo carinho sempre querida.

Bjs no coração!

Nilce

Macá disse...

Lili
Vim conhecer você através da Blogagem e me deparei com uma história bonita e triste.
Mas que bom que ela levou de você o melhor, e que sempre soube do seu amor por ela.
bjs

welze disse...

triste, sem dúvida. mas repleto de lembranças que não devem ser esquecidas. Nunca. Amor como esse só se alimenta. Nos ajuda a viver . Linda declaração de amor. Para quem tem a mãe, já como anjo, como nós, sabe quanta falta ela nos faz. Mas, lembrança , saudade, sim, tristeza, não. Um grande abraço.

dany disse...

Mãe é tudo nesta vida :) amei o texto, dava um filme *

Kelly disse...

Amor....como é bom senti lo e melhor ainda poder expressá lo. Adorei sua participação. Parabéns, beijos

Pri disse...

Oi tudo bom??

To passando só pra lembrar que hoje começa a 4ª pesagem do Desafio de Outono. Poste seu peso até dia 24/01/2011. Ok ???

Lembrando que o participante que ficar mais de 2 pesagens consecutivas sem postar a pesagem será excluída do desafio....

Bjuss
http://desafiodasestacoes.blogspot.com/

Beth disse...

Que coisa linda. Que emocionante. Fiquei aqui quase sem ar, lendo o seu texto, os olhos enchendo de lágrimas, parecia estar vendo as cenas, a pracinha, o bilhete, a vida dura depois...
Que bacana, viu? Que bênção, ter estas lembranças tão lindas de uma convivência amorosa com esta grande amiga que você teve a honra de chamar de mãe.
Ela, onde está, certamente continua olhando por você, inspirando, rindo com as suas peripécias.
É um amor que distancia nenhuma encerra.
Beijo

Lu Pinheiro disse...

Oi Lili...
adorei o post...
fiquei emocionada
obrigada pelo seu carinho...
tenha um ótimo FDS...
bjs da Nega

Sentindo e pensando disse...

Me emocionei. Fui às lágrimas!

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